
A primeira parte do Benfica-Porto fez lembrar a primeira volta deste campeonato 06/07. O Porto revelou-se ambicioso, com forte personalidade, jogando com garra, pressionando imediatamente o adversário que tinha a bola, ganhando a maioria das segundas bolas e olhando sempre a baliza adversária. Notou-se igualmente um forte sentido colectivo e uma boa circulação de bola. O Porto mostrava-se imperial no reduto das águias. O Benfica reservou o seu papel de espectador como fora durante a primeira volta do campeonato. Ao completo domínio do Porto, o Benfica tentava aproveitar-se do erro do adversário. Os encarnados esperavam que o Porto se fartasse de ser constantemente superior para recolherem os proveitos, quase como quem se alimenta das sobras que os outros esbanjam.

Na segunda parte era expectável a avalanche sulista. Era o tudo ou o nada para eles. Do Porto esperava-se a mesma postura que tivera antes de recolher às cabines. Um Porto em busca do controlo de jogo, que o assumisse com carácter, mas que, em virtude de estar em vantagem, partisse com maior comedimento para o ataque. Pretendia-se uma eficiente circulação e controlo de bola, de modo a que pudéssemos defender o resultado com a bola nos nossos pés, em nosso poder. No entanto, algo se passa no subconsciente dos nossos jogadores. Se era previsível algum sofrimento pelas investidas encarnadas, jamais os portistas deveriam ter cedido tanto espaço para o Benfica jogar. Uma gritante falta de coragem para defender o mais à frente possível. Recuando, recuando, o Porto como que se anulou do jogo. Já com Rui Costa em campo, o Benfica beneficiou da qualidade de passe do seu 10 e ainda teve o bónus de ter bastante espaço para o fazer. As unidades do meio-campo deveriam ter sido as primeiras a estar de sobreaviso para o excesso de caranguejices por que derivavam.
Com o Benfica a atacar muito e perigosamente impunham-se mudanças na estrutura do Porto. Léo subia à vontade, criando superioridade numérica na ala esquerda, onde se encontrava um desamparado Bosingwa. Sem frescura, Jorginho não conseguia desempenhar eficazmente essa função e o meio-campo ressentia-se da lesão que obrigara Raul Meireles a abandonar as quatro linhas. Com Cech ainda frio era urgente tomar uma medida que fizesse estancar o avanço das unidades lisboetas. Renteria foi o escolhido para render Jorginho e tapar o flanco direito do FCP. O colombiano saiu-se mal nessa tarefa. Tudo continuou como antes. O dragões tinham de prolongar o seu sofrimento até onde fosse possível. Infelizmente, só foi possível até ao minuto 83. Na sequência de um livre na direita, Simão chutou para a área, David Luiz cabeceou e a bola foi ao poste. Lucho González assiste ingloriamente ao capricho da bola. Colocado praticamente em cima da linha de golo, o argentino só teve tempo para suster a respiração até que a bola lhe batesse no corpo e entrasse na baliza de Helton. Um golo que teve tanto de doloroso como de justo. Previam-se sete minutos finais animados, mas com tendência notória para um lado do campo. Curiosamente, a distribuição dos últimos cartuchos até não foi assim tão desequilibrada.
Aos 90 minutos e depois de cinco meses sem jogar, Anderson regressou aos relvados precisamente contra a última equipa que defrontou. Ocupou o posto de Quaresma e em poucos segundos quase tirava o protagonismo a todos os que já tinham corrido largos minutos. Após um lançamento lateral de Fucile para a área, a bola sobra para Anderson que, em posição frontal, chuta contra as pernas de Léo. Do outro lado preprava-se o assalto final à baliza de Helton. Cotando-se como um dos mais seguros elementos do FCP, Helton haveria ainda de mostrar porque é o número 1 da selecção do Brasil. Aos 90+2', Karagounis, na esquerda, cruza para Mantorras rematar violentamente de cabeça. Helton defende espectacularmente o cabeceamento do angolano, com uma palmada para canto. Mas o jogo não acabaria sem uma tentativa de desempate por parte do Porto. Cech arrancou a toda a velocidade do seu meio-campo, e ao aproximar-se da baliza de Quim, isola Renteria que chuta a rasar o poste. O colombiano, que passou completamente ao lado do jogo, quase que se tornava no herói acidental do embate.
Avaliando o que se passou em campo, o resultado é justo. Porém, dada a mostra de qualidade do Porto na 1ª parte, era perfeitamente dispensável o sofrimento da segunda. Se a 1ª parte do desafio foi uma metáfora da primeira volta do campeonato, a 2ª metade espelhou fielmente a derradeira etapa do mesmo. O Porto obtém a superioridade dos acontecimentos mas teimosamente não consegue mantê-la. Aos pontos de vantagem desperdiçados alia-se a dupla personalidade de cada encontro. Ora joga genialmente numa parte e deita tudo a perder na seguinte. A superioridade nunca deveria ser inibidora numa equipa de futebol que quer ser campeã. Pelo contrário, deveria ser uma fonte de estímulo para acentuar definitivamente as diferenças existentes em relação aos rivais. Que se olhe para as vitrinas da sala de troféus, que se repare na camisola que se veste, que se observe a Cidade que devotamente apoia. Deite-se assim o complexo para trás das costas. O Porto depende em exclusivo de si, para o melhor ou para o pior. Esperamos obviamente que não tenha mais complexo de ficar com o primeiro.

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